quarta-feira, 8 de junho de 2011

Líder da CPT em Rondônia diz a comitiva de senadores que é o "próximo a morrer"

Ex-assentado do Projeto Jequitibá, Sérgio Britto afirmou que, junto com Adelino Ramos, já fez várias denúncias sobre as ameaças

Extrema (RO), 08 de Junho de 2011

Antônio Paulo

Coordenador da CPT, Sérgio Britto (ao microfone), durante audiência realizada em Extrema, em Rondônia
Coordenador da CPT, Sérgio Britto (ao microfone), durante audiência realizada em Extrema, em Rondônia (Alfredo Fernandes /Agecom)
O coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de Extrema, distrito de Porto Velho, capital de Rondônia, Sérgio Britto, 50 anos, pode ser o próximo da lista dos líderes “marcados para morrer”.
Levantamento da CPT Nacional revela que 889 pessoas foram vítimas de ameaças de morte na região Norte entre os anos de 2000 e 2010.
Desse número, 215 foram assassinadas e 203, vítimas de tentativa de assassinato nos Estados do Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Em todo o País, 1.855 pessoas foram ameaçadas em uma década.
“Sabem o que dizem para mim? Você será o próximo a morrer. Mas, eu não tenho medo da morte. Se esta é a minha cruz, eu vou carregar (sic), como o companheiro Dinho carregou a dele. Cada um de nós tem uma cruz; quem quiser que assuma; quem não quiser que se acovarde porque covarde eu não sou. A gente vai continuar nessa luta, denunciando o que acontece por aqui”.
As declarações de Sérgio Britto, prenunciando o seu assassinato, foram testemunhadas pelos senadores-membros Comissão Externa do Senado, por representantes da OAB, Ministério Público Federal, dos Governos de Rondônia e Amazonas e pelos cerca de 200 participantes da audiência realizada em Extrema, nesta segunda-feira (07).
Os senadores Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Valdir Raupp (PMDB-RO), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Pedro Taques (PDT-MT) foram a Porto Velho acompanhar as investigações da morte do líder camponês, Adelino Ramos, o Dinho, e também ouvir as reivindicações dos agricultores, assentados e proprietários de terras da região da Ponta do Abunã (Extrema, Nova Califórnia, Vista Alegre e Fortaleza).
Lista
No comando da CPT local há um ano, Britto conta que nunca recebeu ameaça de morte pessoalmente, mas vários amigos e pessoas conhecidas de Extrema vêm lhe alertando. “Dizem que sou o próximo da lista. O amigo já até sonhou que estava morte”.
Ele conta que fazia parte, em 2008, do Projeto Jequitibá, um assentamento semelhante ao que Adelino Ramos estava implementando. Foram ameaçados e Sérgio Britto se retirou do projeto porque não havia segurança.
O líder católico não fala da família, mulher, filhos, nem onde mora.
“Aqui eu paro. Visito meus familiares, irmãos. Quem está nessa luta tem que estar em um lugar a cada dia. Infelizmente, a gente tem que ver isso aqui (ameaças, mortes) para que alguma coisa aconteça. Alguém tem que morrer. Jesus Cristo morreu na cruz para libertar seu povo. Muitos ainda vão ter que morrer para trazer essa liberdade porque o poder econômico constituído não quer e o Estado faz que não ver”.
Ameaças
Sem se intimidar com a presença de supostos “olheiros” de proprietários de terras e madeireiros que estariam presentes no encontro, Sérgio Britto disse que as ameaças de mortes e assassinatos vêm ocorrendo há 20 anos e apontou como verdadeiros culpados: o poder econômico e o Estado brasileiro que se faz ausente nas regiões de conflitos agrários.
As ameaças de morte foram denunciadas por Britto e por Dinho ao Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), em Brasília, e segundo ele, o Estado brasileiro nada fez para garantir a segurança dos líderes camponeses.
“Espero que vocês (senadores da Comissão Externa) voltem aqui com soluções para dar dignidade a esse povo, com regularização fundiária, saúde, segurança pública, educação, comunicação e não para fazer reunião porque estão matando gente no campo”.
Além de Adelino Ramos, ele lembrou do pastor Gedeão que foi fazer um culto no assentamento, que recebeu o mesmo nome do religioso, e foi morto a tiros.
“É o poder econômico que está matando esse povo e o Estado, sabia, sabe de todos esses fatos”.
Propina
O momento mais contundente da manifestação do coordenador da CPT foi quando ele respondeu ao senador de Rondônia, Valdir Raupp (PMDB).
O ex-governador do Estado havia dado um exemplo da ineficiência do Incra e demais instituições federais sobre a falta de regularização fundiária, havia 30 anos, da gleba Marmelo.
“Essa falta de documentação, criticada pelo senador Valdir Raupp, ocorre porque têm políticos estaduais, federais e municipais no meio. Tenho CPF e RG de todos esses políticos. Eles é que não deixam acontecer o georreferenciamento. O Incra pega suborno para não realizar a demarcação”, afirmou.
Sérgio Britto citou um juiz de Porto Velho, José Ribeiro da Luz, que teria sido preso em uma investigação feita pela Assembleia Legislativa de Rondônia.
Ele disse que o magistrado autoriza reintegração de posse, por sentença, desde que a pessoa apresente um contrato e afirme ser o proprietário da terra.
“A partir da decisão, a polícia vai lá e tira o agricultor da área. Faço essa denúncia pública e não tenho medo”.

POLÍCIA PRENDE MAIS 5 SUSPEITOS DE PARTICIPAÇÃO NA MORTE DE ADELINO RAMOS

Crimes em Vista Alegre


As investigações do assassino do líder camponês Adelino Ramos avançaram nesta quarta-feira com o cumprimento de 5 mandados de prisão expedidos pela Justiça do Amazonas contra outros suspeitos na participação do crime. A ação ocorreu em Extrema, onde foram presos Zaqueu Jesus de Souza, Pedro Jesus de Souza, Marcos Antônio Rangel, Odair Pinheiro Cunha e Jobe Vicente, irmão do suspeito de cometer o assassinato, Ozias Vicente. Todos serão conduzidos a Porto Velho.

Operação da PF prende irmão de deputado e tenta reduzir violência na Ponta do Abunã

Não poderemos deixar a morte de Dinho cair no esquecimento,sómente lembrado até a próxima morte de algum líder ou politico fluente.




Lebrão: "prisões são perseguições do IBAMA"Lebrão: "prisões são perseguições do IBAMA"Em 2006 o agora deputado estadual José Eurípedes Clemente, conhecido como Lebrão, comandou uma série de movimentos na região do Vale do Guaporé, contrários a atuação do IBAMA e da Sedam na região, que combatiam o desmatamento ilegal. Na época Lebrão dizia que “madeireiro não é bandido” e que assim eram tratados por órgãos de fiscalização.
Claro que madeireiros em sua maioria não são bandidos, mas em todas as áreas existem aqueles que “derrapam” e cometem excessos. Com os assassinatos de lideranças camponesas, dois no Pará e um em Rondônia, na semana passada, Brasília reagiu rapidamente e a Polícia Federal, que vinha há tempos monitorando alguns madeireiros, foi acionada e deflagrou nesta terça-feira a Operação Dinízia II, para combater a grilagem de terras, exploração ilegal de madeira e o banditismo armado, inclusive com cobrança de pedágios, no Sul do Amazonas.
A região vem sendo foco de diversos crimes ambientais e relatos de desaparecimento de lideranças e conflitos chegam quase que diariamente, mas as autoridades demoram em reagir. Quando ocorrem crimes de repercussão, como a morte de Adelino Ramos, líder do Movimento Camponês de Corumbiara, ocorrida na semana passada, o governo se vê pressionado e rapidamente adota medidas como a que está em andamento. Antes tarde do que nunca.
Foram presos nesta terça-feira, Pedro Amarildo Clemente (irmão de Lebrão), Andre Bandeira Macari, Nedio Francisco Carbonera, Pedro Cesconeto, Ivo Armindo Ladwing, José Genário Macedo, vulgo “Ceará Popó” e Nixon Luiz Severino. Todos estão com grandes problemas junto ao IBAMA. Nixon Luiz, por exemplo, possui quatro áreas embargadas na região do sul do Amazonas. E só agora foi preso. Em sua fazenda a Polícia Federal declarou que foram apreendidas diversas armas, “um verdadeiro arsenal”, disse um dos delegados envolvidos na operação. Outro preso, Nedio Francisco Carbonera responde ações judiciais no Paraná, também por crimes ambientais.  Pedro Amarildo Clemente, irmão de Lebrão, já responde a ações penais por crimes ambientais, assim como a empresa S.P. Madeiras LTDA.
Conflitos
Há tempos vem sendo publicados relatos de conflitos naquela região. A Agência Brasileira de Inteligência  - ABIN, já identificou os principais líderes e repassou as informações para a Polícia Federal. Era questão de tempo a prisão dos envolvidos. Mas é preciso chegar mais fundo nessas investigações. Diversos camponeses foram embora da região devido a ameaças, denúncia de que milícias armadas percorrem propriedades também já foram feitas, mas foi preciso um assassinato de repercussão mundial, para que a União se movimentasse e prendesse os acusados.
Parentes
O irmão do deputado Lebrão foi o segundo parente de deputado estadual preso este mês pela Polícia Federal. O irmão do deputado Adelino Follador, Adriano Follador também foi preso no Rio Grande do Sul em uma outra operação, que investigava fraudes em licitações em venda de medicamentos em todo o País, inclusive em Rondônia. Adriano já está em liberdade.
Defesa
O deputado Lebrão disse que as prisões ocorridas nesta terça-feira são “perseguições do IBAMA” a lideranças do setor produtivo.

Obs:Claro que que quem está do lado,vai puchar a brasa sempre para seu churrasco...

ASSASSINATO DE DINHO REPERCURTE INTERNACIONALMENTE (FOTOS EXCLUSIVAS)


Dinho vinha sofrendo ameaças de fazendeiros e toreros e já havia denunciado para a Ouvidoria do Ministério do Desenvolvimento Agrário

O assassinato do líder do Movimento Camponês Corumbiara, o agricultor Adelino Ramos  de 57 anos ocorrido  no distrito de Vista Alegre do Abunã município de Porto Velho, esta tendo uma repercussão internacional.
Dinho como era conhecido Adelino Ramos foi assassinado  por volta das 10 horas da manha quando vendia verduras que produzia em sua propriedade rural em um projeto de assentamento do Incra.
Dinho vinha sofrendo ameaças de fazendeiros e toreros e já havia denunciado para a Ouvidoria do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da Republica divulgou nota oficial onde manifesta “total repudio e indignação ao assassinato de Dinho e informou que entrou em contato com a Policia Civil do governo do Estado de Rondônia e com a Policia Federal onde pediu a mais rigorosa atitude para investigar o caso e punir os criminosos, tantos os executores como possíveis mandantes".
É necessária uma ação enérgica e exemplar. Só coibiremos essa violência quando acabarmos com a impunidade”, diz o texto.

terça-feira, 7 de junho de 2011

OAB: assassinatos de líderes rurais se devem à omissão e descaso do Estado


07/jun/2011

Fonte: OAB - Conselho Federal
Omissão, irresponsabilidade e improbidade administrativa. Eis os principais "qualificativos" que se pode atribuir às autoridades públicas federais e estaduais pela expansão da criminalidade e o clima de impunidade e descaso em que vive a população na região de Extrema, a cerca de 400 km de Porto Velho (RO), na tríplice fronteira de Rondônia com Acre e Amazonas - relata o diretor-tesoureiro do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Miguel Ângelo Cançado, que  integrou pela entidade uma Comissão Externa do Senado formada para investigar os assassinatos de líderes rurais que ali lutavam contra a exploração ilegal de madeiras. A última vítima, na semana passada, foi o agricultor Adelino Ramos,o Dinho, líder remanescente do Movimento Camponês de Corumbiara (RO), onde houve o massacre de sem-terras. Ele foi executado a tiros na frente da esposa e das filhas no último dia 27 em Vista Alegre do Abunã. "Na verdade, o que vimos é o retrato de mais de quinhentos anos de completo abandono, de sofrimento, pois as pessoas aqui ouvidas, muito embora sejam simples e, em geral, com pouco ou nenhum grau de instrução, sabem que existe uma Constituição Federal a lhes garantir direitos, mas também sabem que essas garantias estão ainda muito distantes delas, pois não vêem, senão nos momentos de campanhas eleitorais, a perspectiva de serem inseridas no contexto de cidadania|" - escreveu Miguel Cançado em seu relatório sobre a viagem com os senadores, feita num avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Seu denso relato sobre os dramas da região foi encaminhado ao presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, que o examina para encaminhamento de ações e cobrança de providências.
Para Miguel Cançado, "irresponsabilidade e improbidade administrativa, é o mínimo que se pode atribuir às autoridades públicas federais e dos três Estados, muitas delas coniventes com os crimes que se avolumam em proporções alarmantes". Ele anotou também em seu relato ao presidente nacional da OAB que "uma das cobranças mais intensas apresentadas pelos presentes foi a elucidação dos crimes, como o do agricultor Dinho e a imediata punição dos culpados -  aliás, a certeza da impunidade também foi alvo de diversos pronunciamentos e do protesto de muitos".
A seguir, a íntegra do relatório de Miguel Cançado sobre a visita da comissão de senadores e representantes de entidades a Extrema, em Rondônia:
"Cerca de duzentos trabalhadores, produtores e proprietários rurais estiveram reunidos nesta segunda-feira na audiência pública promovida pelo Senado Federal, ocorrida no Ginásio de Esportes do Distrito de Extrema na divisa entre os Estados de Rondônia, Acre, Amazonas e a Bolívia.
Audiência foi conduzida pela senadora Vanessa Graziotin (PCdo B-AM) e contou ainda com a presença do representante do CFOAB, o DT, MAC, ainda os senadores Valdir Raupp (PMDB-RO), Pedro Taques (PDT-MT) e Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).
O abandono a que está submetida a população local e a completa ausência do Estado brasileiro foram as palavras de ordem mais invocadas pelos participantes do evento.
A região é extremamente pobre e falta tudo, saneamento, água, saúde, educação, segurança, transportes, rodovias. A falta de segurança e o constante conflito fundiário na região têm motivado a morte de lideranças e trabalhadores rurais, como a do agricultor Adelino Ramos, o Dinho, ocorrida no último dia 27.
Há anos a população local reivindica a emancipação do Distrito de Extrema, tendo sido aprovada a criação em plebiscito realizado em 2010, mas o processo encontra-se no Congresso Nacional.
Para o DT, MAC, o que se vê na região hoje visitada é uma face cruel, perversa, do descaso do Estado brasileiro para com a gente que vive à espera do cumprimento de promessas históricas de solução das questões fundiárias e da chegada de um mínimo de dignidade e de justiça social.
Na verdade, o que vimos é o retrato de mais de quinhentos anos de completo abandono, de sofrimento, pois estas pessoas aqui ouvidas, muito embora sejam simples e, em geral, com pouco ou nenhum grau de instrução, sabem que existe uma Constituição Federal a lhes garantir direitos, mas também sabem que essas garantias estão ainda muito distantes delas, pois não vêem, senão nos momentos de campanhas eleitorais, a perspectiva de serem inseridas no contexto de cidadania.
Perguntado se sabia quem teria executado ou mandado executar o agricultor Dinho, Aparecido Bispo diz, no microfone, para todos ouvirem, não ter dúvida de que foi o Estado brasileiro que o matou, por não vir aqui garantir um mínimo de segurança às pessoas, sobretudo aquelas ameaças publicamente de morte. A região, dizem alguns,  é um verdadeiro barril de pólvora, prestes a explodir a qualquer momento.
Irresponsabilidade e improbidade administrativa, é o mínimo que se pode atribuir às autoridades públicas federais e dos três Estados, muitas delas coniventes com os crimes que se avolumam em proporções alarmantes.
Não faltaram duras críticas à FUNAI e ao IBAMA, que não tiveram representantes na audiência.
É possível ver no rosto das pessoas a angústia pelo descaso e pela insegurança quanto ao futuro de cada um. Por isso, o que se espera é que o Senado Federal aja com firmeza na condução das graves mazelas hoje denunciadas.
Um País que se pretende grande, que quer exibir números de crescimento significativos à comunidade internacional, que almeja extirpar a fome e a miséria entre os seus, não pode conviver com esta realidade, não pode ver cidadãos em número elevado sendo tratados na mais plena falta de condições humanas.
Uma das cobranças mais intensas apresentadas pelos presentes foi a elucidação dos crimes, como o do agricultor Dinho e a imediata punição dos culpados. Aliás, a certeza da impunidade também foi alvo de diversos pronunciamentos e do protesto de muitos.
Enfim, pessoas que mal sabem manifestar seus sentimentos, fizeram relatos emocionados e entusiasmados para pedir que as autoridades presentes, em especial os Senadores, levassem a Brasília seu grito de socorro, querendo dizer que o Brasil precisa, urgente, olhar para a região amazônica com a vontade não só da preservação do meio-ambiente, mas sobretudo da necessidade de levar dignidade às pessoas humanas, sob pena de pagar um preço muito alto pela histórica omissão hoje denunciadas publicamente em Extrema no Estado de Rondônia.
Na volta da delegação a Porto Velho, o presidente da OAB-RO, Hélio Vieira, esteve com o DT MAC e com os senadores, oportunidade em que falou das providências e iniciativas da Seccional, que inclusive criou e instalou comissão específica para tratar da questão agrária e da violência no campo no seu Estado. Hélio Vieira, que é muito ligado aos movimentos sociais, manifestou ao diretor do CF suas preocupações e a disposição de também contribuir para que se avance na solução dos problemas da região".

Produtores rurais cobram regularização fundiária na Amazônia


Os trabalhadores rurais, alguns com mais de 20 anos na região, apontam a falta de titularidade de terras como a base do conflito agrário nos municípios da fronteira do Amazonas.
[ i ] Senadores e representantes do governo do Amazonas receberam denúncias dos trabalhadores rurais.
Manaus - Representantes do Governo do Amazonas e uma comissão de senadores se reuniram, ontem, com cerca de 200 trabalhadores rurais, em Extrema, distrito do município de Porto Velho (RO), a 70 quilômetros de Bela Vista da Ponta do Abunã, onde o líder do Movimento Camponês Corumbiara, Adelino Ramos, foi assassinado, há duas semanas, e ouviram a mesma reivindicação de todas as lideranças: a regularização fundiária.
Os trabalhadores rurais, alguns com mais de 20 anos na região, apontam a falta de titularidade de terras como a base do conflito agrário nos municípios da fronteira do Amazonas. Eles cobram a implementação do programa Terra Legal do governo federal, criado há dois anos pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.
De acordo com o presidente do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal do Amazonas (Idam), Edimar Vizzoli, em dois anos, o Terra Legal deu título para apenas nove propriedades do Amazonas, que já estavam com o processo em andamento.
“Sem a regularização fundiária é muito difícil fazer qualquer coisa”, disse a senadora Vanessa Grazziotin (PcdoB-AM), depois de ouvir as queixas dos agricultores. O senador Valdir Raupp (PMDB-RO) reconhece que “há uma insegurança jurídica na região” pela falta de regularização fundiária, e  cobrou a presença do Estado. “A Força Nacional de Segurança por aqui, como propôs a presidente Dilma Rousseff, inibe a ação de criminosos”, afirmou o senador.
O representante da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Sérgio Brito, se diz desiludido com a atuação nos órgãos govenamentais porque sempre agem em favor do grandes proprietários rurais. “O Ibama só multa os pequenos agricultores; os grandes produtores desmantam à vontade e não sofrem nenhuma punição”, reclamou.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário também é acusado por Brito de fazer vista grossa para os assentamentos. “A gente espera há mais de 20 anos pela regularização das terras e nada acontece. Enquanto isso, o poder econômico está avançando e matando os trabalhadores”.
Ação do Estado
O Governo do Amazonas montou uma operação que envolve a Polícia Militar, Polícia Civil, Idam, Instituto de Proteção Ambiental (Ipaam), Comissão Executiva de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Codesav) e Secretaria de Fazenda (Sefaz) para tentar frear os conflitos no sul do Estado.
A base da operação será montada no distrito de Extrema. O secretário estadual de Produção Rural, Eron Bezerra, explicou que o caminho mais próximo para se chegar àquela região de conflito no lado do Amazonas são os ramais que ligam os assentamentos à BR-364. É nos distritos de Nova Califórnia, Extrema e Vista Bela do Abunã que os produtores rurais do Amazonas vendem a produção agrícola e foi nessa atividade que Adelino Ramos foi assassinado.
Edimar Vizzoli disse que atualmente o Idam atua apenas no distrito de Nova Califórnia, mas vai mudar-se, nos próximos dias para Extrema, por ser uma área central.
Com a autorização do governo de Rondônia, o Idam vai montar um escritório local, junto com o Ipaam, para oferecer assistência técnica aos assentados. O Ipaam vai atuar na fiscalização do desmatamento e na orientação da regularização ambiental. Mas nada poderá ser feito sem a regularização fundiária.

Missa é celebrada na Câmara em homenagem a trabalhadores assassinados no campo



Compareceram à missa os deputados Domingos Dutra (PT-MA), Érica Kokai (PT-DF), Claudio Puty (PT-PA) e Pedro Ucsai (PT-SC).

Uma missa foi celebrada hoje (7) pela manhã pelo deputado federal Padre Ton (PT-RO) em memória a José Claudio Ribeiro da Silva, Maria do Espírito Santo da Silva, Adelino Ramos e Heremilton Pereira dos Santos, assassinados na área rural do Pará e Rondônia no mês de maio. A iniciativa foi dos deputados Claudio Puty (PT-PA) e Janete Pietá (PT-SP).



A celebração contou com a presença do administrador de Vista Alegre do Abunã Agenor Santos Oliveira, e seu pai João Paulo Santos Oliveira, produtor rural que mora em Candeias do Jamari. Agenor lembrou à rádio Câmara que Adelino Ramos, o Dinho, tinha denunciado madeireiros que atuavam ilegalmente na região numa audiência pública realizada em Manaus, no ano passado.



“No meu entendimento o que falta na região de Vista Alegre do Abunã é a execução de políticas públicas na questão fundiária. Ali é praticamente tudo terra da União, e isso precisa ser resolvido. A grilagem acontece, e com ela a violência”, disse Agenor.



Além dos representantes de Rondônia, 15 representantes de associações e sindicatos de extrativistas do Pará participaram da celebração, marcada pela solidariedade e emoção. Padre Ton foi auxiliado pelo padre Amaro, da cidade de Anapu (PA), onde a irmã Dorothy Stang foi assassinada.



“Dom Helder Câmara disse que religião é amor. E deve ser justiça”, disse o deputado na celebração, que durou cerca de 40 minutos, no plenário 12 e durante o ato foi citado pelos presentes os nomes de diversos trabalhadores assassinados na Amazônia.



Compareceram à missa os deputados Domingos Dutra (PT-MA), Érica Kokai (PT-DF), Claudio Puty (PT-PA) e Pedro Ucsai (PT-SC).

Camponeses contabilizam vitórias

07/06/2011

Poucos dias após a morte do líder Adelino Ramos (Dinho), no último dia 27 em Vista Alegre do Abunã, distrito de Porto Velho, o Movimento Camponês Corumbiara (MCC) obteve duas conquistas agrárias. Mais de 15 anos após o conflito agrário conhecido nacionalmente como “Massacre de Corumbiara”, do qual Dinho foi sobrevivente, a Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) concluiu na semana passada o processo de aquisição da fazenda Santa Elina, onde ocorreram 12 mortes.
A área, juntamente com um Projeto de Assentamento Florestal (PAF), no Sul do Amazonas, que deve ser criado nos próximos dias, será prioritariamente destinada às famílias remanescentes do MCC. Em todo o Estado, cerca de 4,8 mil famílias estão vinculadas aos acampamentos do Incra e parte dessa demanda deve ser beneficiada pela luta do MCC.
O superintendente do Incra em Rondônia, Carlino Lima, explicou que já saiu uma ordem de empenho de cerca de R$ 6 milhões para pagamento de benfeitorias, como pastagens e currais, sendo o restante pago em Títulos de Dívida Agrária (TDA), resgatáveis em até 20 anos, para aquisição da área da fazenda, que é de 14,8 mil hectares. A ordem de empenho saiu na semana passada e, segundo Lima, não teve nenhuma influência com a morte de Dinho. “Esse processo já vinha andando desde 2009. Não houve influência direta com o episódio. É uma pena que ele não tenha vivido para ver”, esclareceu.
 Após a efetivação do pagamento, o Incra entrará com ação de emissão da posse, através de ordem judicial. No entanto, o prazo para emissão, necessária para o início da criação do PA, pode variar. “É uma situação que não se pode precisar porque depende de ação judicial. Mas a média é de 120 dias para emitir a posse”, disse Carlino.
O Incra deve ainda fazer um levantamento agronômico e a demarcação prévia e seleção das famílias. O superintendente estima que a qualidade do solo deve permitir o assentamento de até 400 famílias. “A prioridade do assentamento nessas áreas é para 130 famílias dos remanescentes de Corumbiara”, afirmou, acrescentando que acampados da região também devem ser assentados.
Para garantir a sustentabilidade do PA, o superintendente do Incra afirma que serão intensificados os trabalhos de assistência técnica com vistas a orientar os agricultores para a diversificação da produção.
Conflitos na região norte ganham repercussão
Os conflitos agrários no Norte do Brasil ganharam ampla repercussão nacional após cinco mortes registradas em Rondônia e no Pará e resultaram na criação de uma Comissão Interministerial para apurar os episódios. De acordo com o superintendente do Incra em Rondônia, outras oito áreas em situação de tensão estão em processo de desapropriação em conclusão ou adiantadas. Entre elas, uma fazenda denominada Leme, que fica em uma área de três mil hectares, entre os municípios de Ariqueme e Buritis; outra de 18 mil hectares na região de Machadinho do Oeste, conhecida como Cabeceira e Belo Horizonte; além de quatro áreas de 800 hectares em Theobroma, que estão em fase mais adiantada.
Para o Sul do Amazonas, a Superintendência do Incra daquele Estado anunciou a criação do PAF Curuquetê, em uma área que fica na divisa com Rondônia, próxima a Vista Alegre do Abunã, alvo de madeireiros que atuavam irregularmente. Para o PAF foram destinados 41 mil hectares, uma antiga reivindicação do MCC, que deve beneficiar 100 famílias, sendo que 25 já foram inscritas. O alerta é que as famílias que estão sendo selecionadas devem ter aptidão em atividades florestais. O Incra fará a demarcação do assentamento, melhoria das estradas de acesso e a elaboração do plano de manejo do PAF.


Aumento de crimes no campo na região Norte preocupa


Senadores foram à Rondônia ouvir os produtores rurais.
A morte de Adelino Ramos, o Dinho, foi um dos principais assuntos.

Do Globo Rural
A audiência pública aconteceu no ginásio de esportes no distrito de Extrema, a 330 quilômetros de Porto Velho, perto da área onde foi assassinado o líder camponês Adelino Ramos, o Dinho
Agricultores e assentados da região puderam entregar documentos pessoalmente aos senadores e conversaram sobre os problemas enfrentados nos assentamentos. Um professor que representou a comunidade onde Adelino foi morto disse que todos estão isolados e com medo.
Os quatro senadores de Rondônia, Mato Grosso, Amazonas e Amapá, comandaram os trabalhos. Eles fazem parte da Comissão Especial Externa, criada para apurar as mortes no campo na região Norte e para ouvir os produtores sobre a situação que vivem hoje.
Os agricultores reclamam de falta de assistência à saúde, educação e da exploração de grandes fazendeiros que ameaçam os pequenos.
A comissão deve seguir para o Pará, onde vai acontecer outra audiência. Depois de ouvir os assentados e agricultores, um relatório com as propostas de melhorias será encaminhado para a presidência da República e para os órgãos federais ligados à questões agrárias.
A comissão de senadores também esteve na delegacia de Extrema para saber como estão as investigações sobre a morte de Adelino Ramos. Um suspeito já foi preso.
 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sobrevivente de Corumbiara escreve homenagem ao pai, camponês morto em Rondônia Claudemir lembra que Adelino Ramos, a exemplo de outros líderes mortos na última semana, denunciaram a ação de madeireiras na região amazônica


Publicado em 01/06/2011, 14:30
Última atualização às 14:30
 
São Paulo – Claudemir Gilberto Ramos, sobrevivente do massacre contra trabalhadores rurais em Corumbiara, em 1995, escreveu uma carta em homenagem ao pai, Adelino Ramos, o Dinho, morto na última semana em Rondônia. Claudemir não pôde comparecer ao sepultamento do pai, no último domingo (29) em Theobroma, interior de Rondônia, por ser considerado foragido da Justiça desde 2004.
Dinho havia denunciado madeireiros da região e chegou a avisar há dois anos que sofria ameaças. Para o filho, o camponês caiu na batalha por uma distribuição mais justa da terra. "Mataram a tiros na frente de suas filhas de dois e quatro anos, na frente de sua esposa. Ainda bem que não matou as filhas e a esposa", lamenta Claudemir no texto, divulgado agora pela Rede Brasil Atual.
Claudemir foi condenado a oito anos e seis meses de prisão em 2004. No entanto, ele não aceita cumprir a pena porque sua sentença foi definida com base em uma investigação conduzida pela Polícia Militar, diretamente envolvida no massacre. Os policiais indicaram Claudemir como um dos líderes do movimento, e desde então o militante vive sem endereço fixo, ameaçado por pistoleiros de Rondônia e escapando da execução da pena.
Abaixo, a carta escrita em homenagem a Adelino Ramos:

Meu Pai, Meu Herói, que Deus o Tenha.

Meu pai era um líder, meu herói, cumpriu sua missão! Deus deu a missão do bem e o demônio deu a missão do mal para cada ser humano cometer a maldade que quiser; Deus deu a missão do bem para todos, mas os do mal preferiram ficar com a missão da maldade, e sei que muitos dos ideais da esquerda da qual faço parte não acredita em Deus. Eu acredito e sirvo a este Deus do bem, todo poderoso.
Seu filho, Jesus Cristo, morreu por nós. Para mim, o maior revolucionário do mundo, que morreu de braços abertos, ressuscitou no terceiro dia e vive em nós. Cada um tem seu livre arbítrio, eu sou do caminho de Deus, da justiça para todos, da moradia digna, do salário digno, da saúde e da educação para todos. E terra para trabalhar, terra da qual ninguém e dono, e sim Nosso Deus, que deixou a terra para ser igualitária para todos.
Deixou a natureza para ser respeitada, a floresta para gerar vida, água para beber, ar puro para refrescar do calor, para nos alimentar, para os animais viverem, assim como para os nossos irmãos índios viverem em seus lares, viverem sua liberdade. Tudo isso Deus nos deixou, mas não está sendo respeitado por homens do mal, gananciosos, poderosos, assassinos da floresta, de seres que vivem na floresta assassinando os que defendem a floresta, assim como Chico Mendes.
Meu pai, como tantos outros no mundo todo, como o casal do Pará, José Cláudio Ribeiro da Silva, conhecido como Zé Castanha, e sua esposa, Maria do Espírito Santo, que vivia da extração de castanhas, denunciava a ação de madeireiros e carvoeiros na região. 
Pela luta em defesa da natureza, pela construção de um país mais humano, caiu em combate no dia 24 de maio de 2011 no assentamento Praia Alta da Piranheira, executados a tiros por pistoleiros a serviço de madereiros.
Como dizia seu Zé Castanha: “A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes, querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a irmã Dorothy, querem fazer comigo. Eu posso estar hoje aqui conversando com vocês, daqui a um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci”. 
Na construção de um outro mundo justo, igual e cheio de alegria, lembraremos os companheiros que caíram em combate e gritaremos com alma e coração: "José Claudio e Maria - PRESENTES!"
Meu pai não morreu, foi assassinado, tiraram sua vida na marra, da maneira mais covarde possível. Mataram a tiros na frente de suas filhas de dois e quatro anos, na frente de sua esposa. Ainda bem que não matou as filhas e a esposa. Ele ia vender verduras produzidas em sua terra para dar sustento à família, afinal os sem terra querem a terra para isso para produzir e alimentar sua família, não como alguns que pegam a terra para negócio de exploração.
É verdade, tem muitos sem terra que não dão valor à luta e se vendem. Esses são os maus sem terras, baderneiros, mas temos que separar o joio do trigo.
Meu pai foi um bom exemplo para a sociedade. Deu sua vida para o bem do ser humano e de nossas causas sociais. Pai, meu querido, o capitalismo nos separou por onze anos, e com muita tristeza que digo isto, nem no seu enterro pude ir. Sei que o senhor morreu, mas mesmo vendo as fotos que foram publicadas pela imprensa eu não consigo acreditar que o senhor se foi. Tenho que aceitar a realidade. Muitas vezes me deu vontade de ir com o senhor para lutar, mas como o senhor sabia, se eu tivesse ido teria morrido muito antes do senhor, pois minha cabeça estava a prêmio por latifundiários de Rondônia. 
Fui condenado em um julgamento da justiça de Rondônia. Pra mim, injustiça é lutar por meu direito a Reforma Agrária e tantos outros que estavam pela Fazenda Santa Elina, em Corumbiara. Hoje vivo fugindo como se fosse bandido, por lutar por meus direitos de cidadão. Não cometi crime algum, até porque não existe prova nos autos do processo. Fui torturado, dado como morto pela Polícia Militar e jagunços fardados que assassinaram vários na Fazenda Santa Elina, inclusive a menina Vanessa, de 6 anos, morta a tiros por homens covardes. 
Assim como o senhor, Pai, uma semana antes de sua morte sonhei com o senhor assassinado por tiros. Fiquei a semana toda angustiado, mas como não podia prever o futuro mataram o senhor, meu pai, meu herói, meu exemplo de vida. Honrarei a lei de Deus como está na Bíblia Sagrada: honrarás seu pai e sua mãe, e farei seguindo seu bom exemplo, pois sei que o senhor tinha erros, como todos os seres humanos. 
Pai, o que eu não pude pedir em vida pedirei agora, e espero que o senhor esteja junto de Deus, pois oro a Deus para perdoar seus pecados e o receber como um anjo no céu. Pai, me perdoa pelos erros que cometi, que magoaram o senhor e que não foi do seu bom exemplo e assim. Peço perdão a Deus!!!
Em toda a esfera da sociedade, comunidade, povoados, família, temos que ter um líder, seja mulher ou homem, para nos orientar, se organizar, se formar, se unir para trabalhar e lutar por nossos direitos de ser humanos que somos, e um destes líderes foi meu pai, meu herói.
Te amo, Pai, eternamente em nome de nossa família descanse em paz no paraíso e ao lado de nosso Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo.
Hasta la victoria, siempre!!! (Che Guevara). Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás
A luta de meu pai terminou, mas peço a Deus forças para que eu possa cobrir o vácuo que ficará com a morte do Dinho. Povo de Rondonia, não esmoreça, não tenham medo, pois o que eles mais querem é um povo medroso, covarde e que aceite tudo como eles querem. Covardes são eles, medrosos são eles, por que quanto o povo se revoltar, pode tomar tudo o que é de vocês por direito.
E para aqueles que necessitam de dinheiro, perde a honra e o caráter de matar por dinheiro. Sonho um dia ver esses matadores de aluguel pegarem um lavrador no braço para ver quem sobrevive. Como dizia Martinho da Vila, “você com um revolver na mão é um homem feroz, feroz. Sem ele anda de lado...”
Lutem, Avante Povo Sofrido, povo de Deus, A LUTA NÃO PARA, CONTINUA!!!
Claudemir Gilberto Ramos"